22/11/2021

O que esperar de 2022?

Fonte: Valor Investe / Alexandre Espirito Santo*
 
O panorama político terá muita importância, com reflexos diretos sobre a economia. A inflação, que já está elevada, também é uma das grandes preocupações para o ano. Esperar recessão para 2022 me parece exagerado, pelo menos por enquanto, a não ser que a Selic vá acima de 11%
 
“Como será o amanhã? Responda quem puder...” Samba da União da Ilha do Governador (1978)
 
Faltando pouco mais de um mês para virarmos o calendário, seria interessante vislumbrar o cenário de 2022. Como nós, economistas, temos hábito de fazer projeções para o ano que chega, procurei distanciar-me ao máximo do ímã que eventualmente reflete a bússola que nos guia para elaborar este texto.
 
O primeiro aspecto a se destacar é que 2022 é um ano eleitoral, em que escolheremos o presidente, governadores, deputados e um terço dos senadores. Nesse sentido, o panorama político terá muita importância, com reflexos diretos sobre a economia.
 
Observando a questão sob o ponto de vista da escolha do mandatário, muito provavelmente teremos uma eleição polarizada, como, aliás, vem ocorrendo desde o embate entre Dilma e Aécio, em 2014. Minha percepção é que, infelizmente, replicaremos, na campanha, a arquibancada que tomou conta das redes sociais nos últimos anos, entre petismo e bolsonarismo, com poucas chances de uma bem-vinda terceira via prosperar concretamente, para engrandecer o debate sobre temas fundamentais.
 
Neste texto, não tenho pretensão de analisar o pleito em si, mas o certo é que a eleição influenciará fortemente as variáveis econômicas e os mercados. Precisamos, pois, estar atentos.
 
Um dos pontos mais importantes na análise tem a ver com a taxa de câmbio. Na história brasileira recente, as cotações do dólar são muito afetadas em períodos eleitorais. Minha visão é que não será diferente desta vez, e a moeda americana deve oscilar bastante. Nossa expectativa é que a taxa flutue entre R$ 5,5 e R$ 5,7, com eventuais exageros para cima. De qualquer forma, será uma das principais variáveis a serem monitoradas, pois excessos, que não sejam pontuais, podem impactar a inflação, que já está elevada e é uma das grandes preocupações de 2022. Volto a ela já, já.
 
Outro aspecto é como ficará a situação fiscal do país. Em 2021, experimentamos uma surpreendente melhora das contas públicas, por diversas razões, inclusive pelas “erradas”, como a inflação (sim, inflação alta ajuda ao governo!).
 
Entretanto, com a ideia de expandir os benefícios sociais, transmutando o Bolsa Família em Auxílio Brasil, tivemos que criar rachaduras no “teto dos gastos” para abrir espaço de financiamento, o que provocou enorme desassossego nos investidores, com reflexos sobre a curva de juros, que empinou, câmbio, que disparou, e bolsa, que derreteu. Nossa bolsa é a de pior desempenho em 2021 até aqui e, em dólares, apresenta forte queda na última década, em torno de 50%.
 
Em relação ao crescimento do PIB, teremos um período desafiador. Minha projeção é de uma pequena elevação (números lá embaixo), muito inferior ao (provável) aumento de 5% de 2021. De positivo, deveremos ter uma safra bastante boa e a ótima cobertura vacinal, que dá mais confiança à população de que a pandemia esteja sob controle, favorecendo o setor de serviços, que tem muito peso sobre a atividade econômica.
 
O elevado desemprego, contudo, que não enxergo reduzir-se de forma significativa no curto prazo, bem como com a inflação alta, que vem exigindo Selic muito maior do que o previamente estimado, reduzem o poder do consumo das famílias, que é o principal motor de crescimento. Enfatizo, no entanto, que esperar recessão para 2022 me parece exagerado, pelo menos por enquanto, a não ser que a Selic vá acima de 11%.
 
De volta à inflação, esse parece o grande desafio, o calcanhar de Aquiles do ano que chega, tanto internamente, quanto lá fora. Por quê?
 
Infelizmente, a pandemia, por causa do “fechamento” a que nos submetemos, desestruturou a cadeia produtiva global, e o retorno à normalidade demandará um tempo. Em 2021, tivemos choques de preços generalizados, especialmente de energia, com preços de combustíveis, carvão e gás em alta no mundo inteiro. A inflação nos EUA e na Europa estão elevadíssimas, em patamares não observadas há três décadas.
 
Por aqui, para piorar, o fantasma de uma crise hídrica vem nos assombrando, o que elevou as tarifas de energia. Juntando todo esse quadro, o IPCA ultrapassou os 10% em doze meses, e o resultado fechado deve ser perto do dobro do teto da meta, de 5,25%.
 
Como mencionei, com inflação nos píncaros, o Copom do Banco Central (BC) veio elevando fortemente a taxa Selic em 2021. No início do ano experimentamos um patamar tremendamente baixo para nosso padrão histórico, de 2% ao ano. Todavia, com os problemas fiscais acima mencionados, desancorando as expectativas, assim como a inércia inflacionária ainda muito presente, acabamos tendo a necessidade de altas muito fortes na taxa de referência, sem contar que a consequência do aumento do “pé direito” do “teto” é a elevação da taxa de juro estrutural. Nossa estimativa é que o ciclo de alta, ora em curso, se encerre no 1º trimestre, em 11% ao ano.
 
Outrossim, como venho enfatizando em vários textos por aqui, discordo da tese de que a inflação seja temporária, como vem afirmando o Fed, o banco central americano. Em minha visão, a inflação mudará para um patamar mais alto, o que exigirá dele e dos demais BCs, atuações mais incisivas na política de juros. Com taxas maiores, a era do dinheiro barato, associada à pandemia, ficará no retrovisor, com reflexos deletérios sobre o PIB global e ativos de risco.
 
Na geopolítica global, precisamos falar sobre a China. Com Xi Jinping alçado recentemente a uma espécie de novo Mao, a política de crescimento do país, doravante, deverá ser mais comedida. Ao longo de 2021 já tivemos sinalizações nesse sentido, com dores de cabeça nos mercados de construção civil e commodities, como minério de ferro, cujo preço desabou para mais da metade. Minha percepção é de que a China deverá crescer pouco acima de 5%, o que é, sem dúvidas, um bom número, mas, de alguma forma, limitador de fortes avanços no PIB global.
 
Resumidamente, os principais riscos que antevejo para a cena externa são uma alta mais intensa de juros lá fora, um crash nas bolsas/criptos e eventuais recidivas da Covid-19, trazendo o espectro da estagflação. Outro fator que não se pode esquecer é que nos EUA há importantes eleições legislativas, que podem atrapalhar a economia.
 
Diante do exposto, seguem alguns indicadores projetados para 2022, com cenários de referência (80%) e alternativo (20%) ponderados:
 
i) PIB: Brasil: + 0,5%; EUA: + 3,8%; China: +5,2%; Global: + 4,1%;
 
ii) Commodities: Petróleo: U$ 60/barril; Minério de ferro: U$ 130/ton; Ouro: U$ 2.000/oz;
 
iii) Inflação (IPC): Brasil: 4,7%; EUA: 4,2%;
 
iv) Taxa de juro: Selic 11%; FED funds: 0,75%; 10 anos: 2% e
 
v) Bolsa: Ibovespa: 134 mil pontos; S&P: 4,2 mil pontos; Nasdaq: 14,5 mil pontos.
 
Com a convicção de que teremos um ano desafiador e extremamente volátil pela frente, encerro com um trecho otimista de um dos mais belos sambas de todos os tempos: “E vai chegando o amanhecer (...) e o realejo diz que eu serei feliz”.
 
*Alexandre Espirito Santo, Economista-Chefe da Órama e prof. IBMEC-RJ